28 de outubro de 2009

Conto I - Aula de física !

Era uma tarde abafada de outono, dúvidas passavam fluidas por entre as cadeiras gastas e sebosas de uma sala mais quente ainda que o próprio ar do lado de fora – onde neste exato momento estava minha mente, que dançava livremente, sem medos, entre os pássaros e o vapor. E nessa sala, onde os ventiladores não lançavam se não borrifos de gás fervente vindos do inferno estava ele, encostado numa mesa corroída por cupins famintos e com a ferrugem dando um ar de imundice – o que combinava perfeitamente com o professor. Com sua camisa pólo branca levemente manchada de café e com um pequeno furo na gola suada o que exalava um cheiro desagradável, todos os suores dos dias anteriores se misturavam ali, como se numa orgia de odores, no bolso ele ostentava canetas gastas e pilotos secos; sua calça elevada acima do umbigo era praticamente centenária, não tinha furos nem manchas, mas o tecido era tão frágil que eu poderia apostar com qualquer um que se ele pegasse uma brisa mais forte ela desintegraria, o sinto era coisa de família, gasto na borda e marrom cor de fezes expostas ao sol, tudo combinava com ele. Já os sapatos eram novos, ainda brilhavam como meus olhos observando uma caneta de uma ponta bem fina e que alimentava meus devaneios assassinos.

Fisicamente ele era como um magro aidético, já a fisionomia era odiosamente arrogante e desprovida de beleza, com uma voz irritantemente grossa e que ao chegar em minha mente fazia com que ela entrasse em conflito e alimentava ainda mais meus pensamentos vis. Meu corpo era tomado de ódio e nojo, sentado lá em minha cadeira eu o via, e olhava para fora. As janelas tinham grades, mas isso não importava, se eu não saísse de lá, ele sairia. O cabelo era seco como palha posta ao sol para secar e que eu estava torcendo ardentemente para que algum fósforo perdido pousasse ali e iluminasse a sala e alimentasse minha gula com cheiro de churrasco, os óculos empoeirados e provavelmente cansados de viajar por olhos e olhares tediosos e sem emoção.

- Fure-os, se estilhasse e se funda com esses olhos nojentos e míopes. Faça algo de grandioso e se liberte óculos de aros metálicos. Clamava!

Diante de tudo isso rondavam fórmulas e quadros envelhecidos, a sede que me tomava e a barriga ainda cheia de um almoço indigesto. Bocejos e sonolências compradas. Minha mente viajava e voltava mais assassina do que antes, queria me libertar.

E eu ali, no final da sala, olhando para todos a minha volta com total repugnância. Todos eram ele, não conseguia distinguir mais ninguém. Todo eram ele!

Escorado na porta, ditando teorias imundas e fétidas, ele me encarava e caminhava em minha direção, apenas para fiscalizar e ridicularizar qualquer um que não anotasse toda àquela bosta que caia de sua boca como se fosse um ânus infeccionado que jorrava merda sem parar, que chegando ao chão respingava em todos. Em todos.

- E você rapazinho!? Vai anotar nada não?

Olhei a caneta com mais fixação ainda, imaginava-a enfiada no pescoço daquele escroto, enquanto ele gemia seco e se debatia no meio da sala apertada com a boca aberta e mostrando os dentes amarelados e a língua sebosa e mal escovada. Eu queria isso, vê-lo lá no chão. Morto.

Deu as costas e andou, mostrando aquela careca feia e com uma pequena verruga no meio do pescoço. Percebi que ele rebolava enquanto caminhava, surgiu um riso em minha face contraída de ódio, mais sumira tão rapidamente quanto um pássaro que passara voando ao meu lado.

Intervalo.

-Esse era a hora!

Todos saíram, já que todos eram ele, saiu partes dele. Mas matando ele, todos morreriam. Devaneei. E num impulso levantei, peguei a caneta e fui em sua direção, o odor aumentava, mas a sede de matá-lo era maior. Muito maior. Parei em sua frente.

- Alguma dúvida?

Foram as últimas merdas ditas por ele. Um segundo depois ele estava com uma caneta na garganta, dois segundos depois, no coração, três segundos depois, no estômago. O sangue jorrava em minha cara, era quente e fedido. Mas minha sede estava sendo saciada. Ele não se debatera como eu imaginava, ele ficou estático. Mas ele tinha muito sangue, criou-se uma enorme poça ao meu redor, e a caneta que estourara no chão, misturando-se ao sangue, criando um roxo tão magnífico, mas logo desaparecera, o sangue tomou conta de tudo. Sala sangue. Professor sangue, rosto sangue. Sangue!

Saí elevado e em outro espaço físico, estava livre. Meus passos ficaram marcados com sangue, poeira e folhas secas. Não via mais ninguém, não ouvia gritos, nem empurrões. Estava livre. Matei-o. Matei a todos. Todos eram eles. E eu ri.

E apenas ri.

de novo novamente (rs) o graaaande LUIZ VICTOR (vulgo vitêra :D) esse aí sabe demais :]
09.08.2009 (data em que eu recebi esse texto)

Um comentário:

  1. eu pago paau pra esse texto . ! meu desejo mais secreto exposto num monte de linhas, escrito por um outro.. haha ! poderia ser ofensivo se nao fosse irônico !
    ah.. Mila, meo amoor. . amo teus textos tbm. tua fã ! [nathália G.

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